Digestivo Cultural - Segunda-feira, 20/5/2002
Maurício Dias -
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(...)
A arte é uma forma de interação com o mundo, e
sua prática é terapêutica a todos, até
mesmo pelo simples axioma Machadiano: "Precisamos matar o tempo, ou
ele nos mata."
E desenhar, pintar ou esculpir são uma ótima forma de
matar o tempo. Em mais de um sentido: se no século XVII o
pintor holandês Vermeer matava o tempo desenhando, suas obras
driblaram o tempo, eternizando o artista. O tempo não matou
Vermeer, que ainda está entre nós.
(...) minha briga não é com os artistas
contemporâneos; mas com a mídia e os cadernos
culturais, que dão um espaço hegemônico a
instalações e abstracionismo. Inclusive, chegando a
boicotar a boa arte figurativa, talvez por
temer que a comparação fizesse o
público ver que tem sido constantemente
logrado.
Alguém pode argumentar que não há como
estabelecer um parâmetro entre estilos tão
díspares quanto, digamos, pintores da renascença e
abstracionistas americanos. Sei que são mundos completamente
diferentes, a pintura perdeu a necessidade de ser uma
representação documental por causa da fotografia, mas
parâmetros sempre existiram. Basta respeitar
os contextos.
Um homem de 1,80 metro é um sujeito alto? Na
geração do meu pai era, hoje em dia é comum.
Na Suécia 1,80 m deve ser a altura média; na
Indonésia deve ser bem alto; na Itália do
período gótico seria um gigante. Olha como
traçamos um parâmetro entre mundos completamente
diferentes. E sempre existiram mais altos e mais baixos, mesmo
antes de se convencionarem medidas como pés, polegadas ou
centímetros. As medidas são apenas um
critério.
Duccio, artista italiano do século XIV, pintava bem? Muito
bem. Na sua época a questão da perspectiva não
estava bem resolvida, o conhecimento de anatomia não pode
ser comparado com o que o Renascimento mostraria duzentos anos
depois; mas Duccio estava entre o que havia então de melhor.
E resistiu ao crivo dos séculos, sendo grande até
hoje.
Expressividade, composição das imagens, uso das
cores, anatomia, perspectiva, estes são alguns
critérios da pintura. (...).
Alguém pode perguntar: E a criatividade, o senso de
observação, a inserção de caracteres
pessoais na obra, a interação com o tempo em que se
vive, não são critérios para avaliar uma obra
visual?
Sim, é claro. Mas estes são critérios
pertinentes à todas as artes. Aqueles que listei antes
diziam respeito apenas às artes visuais. Uso das cores,
anatomia, etc. não dizem respeito à obra de um
músico, ou um escritor. Os critérios destas artes
são outros, e para saírem-se bem os artistas destas
áreas devem dominá-los.
Só o conhecimento pleno de seu
métier liberta o artista para dar asas
à imaginação. Não gosto de muita coisa
que Picasso fez nas décadas de 20 e 30, mas
é certo que se ele alcançou a
libertação do jugo da forma foi justamente por
dominar esta mesma forma em sua plenitude.
Hoje em dia, qualquer grafiteiro de quinze anos quer desconstruir.
Não teve nem tempo de aprender a desenhar um pé, mas
quer transgredir - embora nem mesmo saiba a que ele quer
transgredir.
Uma analogia, para realçar a importância dos
critérios: no futebol, (...), quando um jogador atinge outro
é falta, punida com tiro livre direto. Uma
falta mais violenta é punida com o cartão
amarelo, a repetição de falta violenta deve
ser punida com o cartão vermelho, que
acarreta na expulsão do jogador faltoso.
(...)
Pode-se alegar que com a abolição dos
critérios se criaria um novo esporte: um porradobol, ou
canelobol, que seria uma evolução e
segmentação do futebol, como o são o futsal, o
futvôlei. Tudo bem. Só que os astros do futsal e do
futvôlei não têm, e acho que jamais
terão, o mesmo reconhecimento que os craques dos gramados.
Seja no número de paixões que despertam, seja no
salário que recebem. [b]Nas artes plásticas é
o contrário. O filho rebelde ganha mais que o pai milenar,
seja em espaço na mídia, espaço físico
para exposições[/b], seja em dinheiro pura e
simplesmente. Tudo isto, em imensa parte, por causa do
beneplácito da mídia.
Se a sociedade contemporânea procura abolir os
critérios da pintura, talvez seja justamente por reconhecer
que através deles não tem como competir com o
passado. O que não é verdade para
todos, até porque não há uma
competição direta: o fato de eu saber que Rembrandt
foi superior tecnicamente ao nosso contemporâneo Lucian Freud
não me impede de gostar muito do segundo. E além de
Freud, há muitos artistas que nos dias que correm seguem com
qualidade a tradição figurativa - embora
constantemente boicotados pela mídia, que mais e mais se
vê voltada para um conceito algo estranho, fluido e
volátil, que é este de "mercado de arte".
Arte é uma mercadoria? Também o é, claro,
visto que pode ser comprada ou vendida, mas não é
também uma expressão de sentimentos, idéias,
saber? Deveria ser julgada pelo seu valor pecuniário
ou pelo seu valor artístico?
Até porque este valor pecuniário é
estabelecido num certo conluio marchands/críticos,
como pode ser visto no livro de James Gardner, Cultura ou
Lixo? (Culture or Trash?, Versão em
português de Fausto Wolff, Editora Civilização
Brasileira.)
Assim, na selva do vale-tudo contemporâneo os
critérios seculares foram substituídos por um
único e novo critério: bom trânsito com
a mídia. E isto se consegue de muitas formas: no
período de formação do artista - que
é cada vez mais breve - entra-se para grupos e "escolas de
artes visuais" que sigam os ditames da moda e já
tenham espaço cativo nos periódicos; chama-se
críticos de jornais para escrever textos de
livros-portfólios, catálogos ou
exposições - pois cada vez mais, não
há arte visual contemporânea sem texto. A
arte já não se explica por si própria,
é preciso um texto para tentar ordenar aquele caos e
traduzi-lo ao público.
Mais uma vez digo: minha briga não é com os
artistas. Não concordo com a idéia de buscar fama e
mercado em vez do saber. Mas a opção
é deles, que fiquem em paz com suas consciências. E
quanto a buscarem a aproximação e simpatia de
críticos, eu não seria louco de os censurar por isto;
o marketing e o cultivo das boas relações são
necessários à sobrevivência do artista, ainda
mais num mercado pequeno como o brasileiro. Minha
crítica é aos críticos, que aceitam serem
cortejados com festas, presentes, etc.
Um crítico que escreve por encomenda para determinados
artistas sentir-se-á livre para criticar estes mesmos
artistas depois? Ou procurará manter sempre um
relacionamento cordial para no futuro obter novos "bicos"?
Enquanto isso, artistas de fora das panelas têm seu
talento negado. E como isso é feito? Ora, os
críticos de arte não podem falar mal de pintores
figurativos que tenham evidente conhecimento de seu ofício.
Até porque, se os críticos falassem mal, abririam
espaço para uma resposta, geraria polêmica, e isso
não interessa a aqueles que têm nas mãos, para
usar ao seu bel prazer, uma das mais mortíferas armas de
todos os tempos: a mídia. Assim, certos críticos
adotam uma postura extremamente hipócrita:
simplesmente não mencionam nunca a existência de
determinados artistas. (...)
Em 2001 a exposição do espanhol Joaquin
Sorolla no Rio de Janeiro foi ignorada pelo caderno cultural de um
dos maiores jornais do Brasil. (...).
A vítima, quem sofreu com o silêncio sobre a
exposição, foi o público carioca, que perdeu a
oportunidade de ver uma grande obra.
E isto vive acontecendo em escala menor, com artistas nacionais,
vivos, que se vêem privados do contato com o público,
uma das metas da arte.
E este tipo de pensamento radicalmente
anti-acadêmico, talvez até mesmo uma ideologia,
já domina nossas faculdades de artes há pelo menos
trinta anos. As provas e os cursos de mestrado em
belas-artes tem um percentual enorme de arte contemporânea em
sua bibliografia. (...) O que acarreta num controle cada vez maior
desta - repito - ideologia sobre nossa intelectualidade.
Esta situação se repete pelo mundo todo, mas no Rio
de Janeiro, particularmente, um fato contribuiu para isto: a
transferência da Escola de Belas Artes da UFRJ do centro da
cidade para a Ilha Universitária do Fundão. No
centro, a escola estava próxima do Museu Nacional, assim
como do núcleo vital da vida urbana: dos chopes da
Cinelândia, da malandragem boêmia da Lapa, dos
executivos engravatados - eventuais mecenas. No Fundão
não há nada senão estudantes e professores.
(...).
Na época da transferência da EBA o centro do Rio ainda
não estava coalhado de espaços culturais, iniciativas
louváveis que se seguiram ao pioneirismo bem-sucedido do
Centro Cultural Banco do Brasil. Hoje, com tantas casas de cultura
no centro da cidade, seria ainda mais importante que os alunos de
belas artes se beneficiassem de uma proximidade com tais
espaços. Para sua própria formação
enquanto estudantes, assim como para a divulgação de
seus trabalhos.
Some-se a isto o fato de a pintura não ser uma arte
totalmente integrada ao cotidiano brasileiro, sendo sua
apreciação restrita às
elites. (...) aqui, onde há um volume de
leitura insatisfatório, a educação
pública é uma vergonha e o índice de
analfabetismo funcional é alto, as palavras
dos formadores de opinião ganham um peso enorme. (...)
(...)
E é justamente uma homogeneização, um
nivelamento por baixo que todo o sistema de ensino de artes, aliado
ao despreparo/manipulação dos críticos
está criando. Os efeitos já se fazem sentir
em todas as exposições e galerias. Se não se
lutar para reverter este quadro, estaremos perdendo décadas,
dedicando espaço exagerado ao descartável. Depois
será trabalhoso para recobrar o tempo perdido.
Poderemos acabar tendo que, como no século XIX,
importar professores europeus para vir aqui ensinar desenho e
pintura, pois o conhecimento já adquirido por
alguns nomes está sendo varrido para debaixo do tapete, em
prol do oba-oba pós-moderno. Ou alguém acredita que
autodidatismo e o do it yourself vão continuar
sendo a tônica indefinidamente, e este troço de
"professor" é coisa do
passado?
(...).
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