Obras inimigas - arte degenerada  (Hist. Arte) escrito em terça 31 julho 2007 15:27

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Na Alemanha pós-weimariana não adiantava ao pintor ser neutro politicamente. 0 Estado nazista (-) não reconhece neutralidade em nada. Muito menos em arte. Um quadro cubista ou expressionista parece insólito ao espírito totalitário do burocrata. Instintivamente ele divisa ali um desafio à nova ou à velha ordem" (Mário Pedrosa)

Ano de 1937, julho, Munique, Alemanha. A tradicional Galeria Hofgarten abria a exposição Entartete Kunst, ou seja, Arte Degenerada, montada pelo Partido Nacional Socialista alemão. Com o evento os nazistas pretendiamam desmoralizar a arte moderna e seus mais significativos nomes como Kandinsky, Klee e Picasso.

Foram expostas 650 obras entre pinturas, gravuras e esculturas, selecionadas entre os mais de 5 mil trabalhos confiscados dos principais museus e galerias pelo Ministério da Propaganda de Hitler.

A arte moderna estava sendo considerada perniciosa à "estética" partidária, "fruto da insanidade, imprudência, inépcia e completa degeneração", como anunciava em seu discurso de inauguração o nazista Adolf Ziegler.

Paralelamente, o governo inaugurava com destaque a Exibição da Grande Arte Alemã, emoldurada com honras. Assim, o povo poderia comparar a arte "degenerada" dos modernos com a arte do ideal ariano.

O empenho nazista foi um sucesso (se for considerado o número expressivo de público alcançado). Mais de 2 milhões de pessoas desfilaram pelas galerias para ver os desprezados, dentre outros, Braque, Matisse, Mondrian e Munch. Os expressionistas alemães, em grande evidência na época, também foram considerados "degenerados".

Uma arrumação descuidada fazia parte do plano do ministro da Propaganda para aumentar, premeditadamente, a sensação de desagrado que deveriam transmitir as obras condenadas pelo sistema. Pinturas de autoria de doentes mentais de hospitais alemães foram expostas junto aos quadros de artistas consagrados. Muitos títulos foram substituídos propositalmente para causar impacto negativo. Fora isso, fluía um discurso político moralizante e insultos atirados contra a estética modernista. 

Dizia hitler: "De agora em diante nós iremos empreender uma guerra implacável contra os últimos remanescentes da desintegração cultural (...). Por tudo que nós apreciamos, esses bárbaros pré-históricos da Idade da Pedra podem retornar às cavernas de seus ancestrais e lá realizar os seus rabiscos primitivos internacionais." (Adolf Hitler, discurso acerca da Arte Moderna, 1937)”.

O premeditado conjunto de ações induzia a idéia de que a pretensa insanidade da arte moderna era concepção da opinião pública. O governo alemão precisava impor e consolidar a idéia de beleza ariana e via na arte descompromissada com a estética e rigores clássicos um fator de indução de desvio da ideologia política.

O início do combate ao modernismo iniciou-se em 1927, tendo como veículo ensaios do ideólogo Alfred Roisenberg que acusava a estética modernista de ser um desequilíbrio alienante, resultante da conjugação do dinheiro capitalista com a cultura de massa manipulada pelos comunistas.

A arte moderna, dentre várias motivações, possuía um sentido de libertação do espírito conservador. Kandinsky falava que o artista devia contrapor-se aos fatores de limitação da liberdade criativa; haveria o espírito livre a ser preservado e capaz de eliminar preconceitos contra as inovações em arte.

A Alemanha após a primeira guerra encontrava-se debilitada e com sérios problemas sociais e econômicos. Artistas alemães modernos retratavam tal sociedade envolta em depressão. Os expressionistas alemães expunham os sentimentos dessa decadência e as maiores expressões surgiam com Nolde, Otto Dix, George Grosz e Klee.

Em tal cenário, a arte moderna acabou sendo vista como um instrumento atormentador e conscientizador da decadência alemã no início do século XX.

Em 1929, Rosenberg iria selar aliança com Paul Schultze-Naumburg, arquiteto e artista plástico, na tentativa de dar freio ao que na época denominavam de "arte degenerada". Nascia a Federação do Combate para a Cultura Alemã, uma instituição partidária e que lutava contra a arte denominada "cultura bolchevista". Logo, quando o nazismo subiu ao poder, em 1933, a arte moderna na Alemanha já se encontrava com dias marcados. Deu-se início a uma perseguição aos artistas e intelectuais.

A vanguardista escola de arte e arquitetura Bauhaus teve suas portas fechadas pelo governo. Paralelamente, foi decretada a proibição da diversidade criativa e imposto o neoclassicismo como modelo a ser seguido. Uma censura a tudo o que não fosse do gosto do partido político mandatário.

Em 1933, Grosz pinta "A Bestialidade Avança"(1) em confronto com a perseguição do Terceiro Reich. Enquanto isso, Hitler afirmava que os artistas modernos, enquanto tradutores de experiências interiores, eram doentes: "... eles são um perigo público e devem ficar sob supervisão médica. (...) Se era pura especulação, então deviam estar numa instituição apropriada para o engano e a fraude".

Os nazistas iniciavam de forma mais contundente a manipulação de idéias sob estética para justificar objetivos políticos. A arte virou uma arma de indução, um forte veículo de propaganda ideológico-partidária. A idéia de raça pura, superior e forte tornava-se mais apropriada se representada pelo naturalismo, com virtuosismo clássico. O artista "perfeito" era aquele que reproduzia a Alemanha "perfeita" sob a luz da eugenia.

Logo, a arte moderna, politicamente, não representava o perfil desejado e passou a ser vista como uma manifestação "degenerada". Enfim, tudo o que não representasse o ideal nazista passou a ser mal visto e a "deformação da arte" justificou a perseguição e o confisco de qualquer coisa que não brindasse ao nazismo, podendo ser enquadrada no rol dos indesejáveis "doentes" ou "enganadores". Diversas exposições que configuravam um grande trabalho de publicidade partidária, foram patrocinadas para orquestrar os ideais nazistas.

A grande exposição da "Arte Degenerada" circulou pelo país, coroando o esforço de "purificação" das galerias e museus alemães. Os cofres do partido também lucraram com o empenho. Muitas obras foram leiloadas, rendendo ótimos números para o ideal nazista. As obras de arte que não eram vendidas destinavam-se à destruição sumária. Mais de 4 milhares de pinturas, aquarelas e trabalhos de outras técnicas foram incineradas.

Muitos artistas alemães refugiaram-se no exterior ou, pior, colocaram-se num exílio interno admitindo os temas do nacional-socialismo. O Reich investia nos artistas que se dedicavam a expressar a propagada supremacia ariana.

Ao final da Segunda Guerra Mundial, os artistas que se dedicaram à estética nazista, estigmatizados, caíram no ostracismo.

......
(1) (ver http://www.mac.usp.br/projetos/seculoxx/modulo1/expressionismo/exp_alemao/novaobjetividade/george%20grosz/obras.html)

Fontes
“Aventuras na História" - Edição 47 / Julho de 2007, artigo de Sérgio Miranda.
Museu de Arte Contemporânea da USP -
http://mac.mac.usp.br/obracontexto/paulklee/

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Todos os comentários desse artigo:
Obras inimigas - arte degenerada

  • Nicolau da Romênia

    Qua 27 Mai 2009 18:23

    Os artistas que se dedicam com a estetica nazista, não "cairam em ostracismo" mas, sim, são perseguidos e proibidos pela perversa ditadura democrata da Colonia Sionista chamada de "Alemanha"!

  • Miguel Westerberg

    Sáb 04 Ago 2007 01:19

    ADOREI SEU BLOG SOBRE ARTE ,, MUITO BOM..

  • Jorge/Portoeu

    Qua 01 Ago 2007 16:19

    A cultura alemã sempre me fascinou. Li muito sobre a ascenção até à queda de Hitler e todo o após guerra. A luta dos povos da europa - vamos excluir os tristes Portugal e Espanha e a ex União Soviética - para se ergueram do desastre do Holocausto.
    Culturalmente também, foi um esforço muito grande para reconstruir tudo o que foi destruido- mental e fisicamente.
    Este artigo veio aumentar mais um pouco os meus conhecimentos.