Em artigo publicado na Revista encarte do jornal O Globo de 17 de junho de 2007, Artur Xexéo nos fala dos "telefones arte". Sutil e interessante é a matéria intitulada "Alô, alô: responde"aqui transcrita em suas partes mais significativas
"Foi notícia na semana passada. A artista Britânica Katie Peterson conectou um telefone a um microfone submerso instalado em Vatnajokull, a maior geleira da Europa. (...) ocupa mais ou menos 8% do território da Islândia, mas passa por um acelerado processo de degelo. Numa galeria em Londres, o público é instado a telefonar para a geleira e ouvir os sons emitidos por ela. Enquanto ela existe.
(...) acreditei que ninguém encontraria uma forma mais exótica de tratar o telefone como arte do que Salvador Dalí. (...) o telefone-lagosta do pintor catalão era o máximo a que se poderia chegar. (...) Dalí fez... hummm... uma escultura? Bem, talvez hoje fosse chamada de intervenção. Enfim, era um telefone preto, como eram todos os telefones em 1936, ano da criação original de Dalí. (...) Só que, na obra de Dalí, o auscultador era encapado por uma lagosta de plástico. (...) . Não dá para comparar o telefone de Katie Peterson com o de Dalí. O da inglesa é arte engajada; o de Dalí, (...) costumava justificar sua criação dizendo que não entendia por que, ao pedir uma lagosta num restaurante, ela nunca vinha servida com um telefone.
O telefone como obra de arte atingiu outro patamar, no Japão como parte do acervo do Museu John Lennon, em Saitama. Alí (...) o visitante, inebriado pela trilha sonora do ambiente, encontra, (...) sobre uma mesinha redonda, um telefone branco. Ao lado da mesa, fica uma poltrona. Não há o menor sinal à vista de que aquele telefone tenha alguma coisa a ver com a vida de John Lennon. (...) É preciso sentar-se na poltrona para, então, ler uma explicação sobre a mesa. Se o telefone tocar, atenda-o. É Yoko Ono que liga de vez em quando para conversar com os fãs de seu marido.
Apesar de toda boa intenção de Katie Peterson e seu telefone engajado na denúncia contra o aquecimento global, apesar da genealidade (ou picaretagem?) de Dalí e seu telefone-lagosta, meu telefone-arte preferido é o de John Lennon. Cheguei mesmo a ficar sentado, (...), na expectativa de o telefone tocar. Nunca iria me perdoar se visse outro visitante (...) trocando algumas palavras com Yoko. Fiquei 40 minutos na poltrona. Yoko não ligou.
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Ainda sobre Salvador Dalí, extraído do artigo
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"Salvador também flertou com a cultura pop. "O chocolate Lanvin me deixa louco", dizia no comercial de tevê da guloseima francesa, veiculado em 1969, com os olhos arregalados e o excêntrico bigode levantado. Desconstruiu objetos e fez o famoso sofá vermelho no formato dos lábios de Mae West, e o telefone-lagosta que influenciariam o ícone Andy Warhol. Criou bolsas, carteiras e pastas de couro para regalar os amigos, dentre os quais o duque e a duquesa de Windsor. Os acessórios, que produziu em edições limitadas na década de 60, foram atualizados no ano passado e serão relançados no mercado de luxo de vários países. No Brasil, os mimos de Dalí devem chegar ao preço médio de R$5,9 mil".

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